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O cemitério da cidade fantasma

05/09/2013

Vilarejo que circunda cemitério fica abandonado durante o ano inteiro e lota na festa em homenagem às almas enterradas no lugar


“Ó tu que vens a este cemitério medita um pouco nesta campa fria: eu fui na vida o que tu és agora, eu sou agora o que serás um dia“. Esta mórbida frase, inscrita numa placa, recebe os visitantes do Cemitério das Almas do Peixe, localizado na região do Alto Jequitinhonha, sertão de Minas Gerais. Está longe de ser a única coisa estranha no lugar, que se resume ao solitário cemitério, rodeado por um estranho vilarejo, que fica abandonado quase o ano inteiro. São cerca de 200 pequenas casas brancas, muito simples, construídas em ruas de chão batido. Não existem moradores nem nada dentro das casas - muitas ficam com portas e janelas abertas. Na maior parte do ano, os únicos “moradores” estão dentro dos túmulos.

Ou melhor, quase os únicos. Há dois destemidos e solitários habitantes que insistem em permanecer no lugar. Dona Carlota de Oliveira Brandão e seu filho Zezinho. Ela sempre viveu lá, onde nasceu, cresceu, casou, engravidou, pariu e enviuvou. Mudou-se para um casebre no arraial fantasma há 20 anos, quando o marido morreu – foi enterrado no Cemitério das Almas do Peixe. Dos nove filhos, apenas Zezinho ficou ao seu lado, e hoje a ajuda a cuidar da casa. Apesar da tétrica fama de sua terra natal, Dona Carlota jura que nunca viu ou ouviu alma penada. Morto? Só os que foram morar nas covas do lugar. “Já vi muito enterro, claro. Moro ao lado do cemitério”, ri.

O lúgubre cemitério fica nos limites do município de Conceição do Mato Dentro, a 270 km de Belo Horizonte, a capital mineira, próximo ao Rio Paraúna. A crença do povo no poder das almas dos mortos ali enterrados faz com que, no dia 15 de agosto, o clima soturno do lugar dê lugar à Festa às almas e a São Miguel. Cerca de cinco mil romeiros, de todos os cantos, partem em direção à vila fantasma para cumprir promessas ou fazer pedidos aos parentes mortos. Carregam consigo tudo de que precisam para os dias em que se dedicarão a louvar os ocupantes da necrópole: colchões, mantimentos e as panelas com que “mobiliam” os casebres. 

Circulam há muito, muito tempo histórias sobre a origem do Cemitério das Almas do Peixe. Uma delas remonta a meados do século XIX. Um grande número de soldados, aquartelados na região, teriam morrido de intoxicação alimentar ao comer pescados estragados. Foram sepultados ali mesmo. Eles fariam parte de uma tropa cuja função era fiscalizar uma rota de contrabando de ouro e pedras preciosas, secundária à Estrada Real. De fato, há ruínas de uma espécie de posto alfandegário, construído no século XVIII, que fazia o controle de entrada e saída da Demarcação Diamantina, a área de mineração do Tejuco, atual cidade de Diamantina, que fica a 70 km dali. Outra dá conta da morte de um escravo, conhecido como Peixe, que transportava um diamante para seu senhor. Ele teria tentando fugir com a pedra preciosa e foi encontrado sem vida, no lugar onde hoje é o cemitério. Nos dois relatos, o falecimento ocorreu no dia 15 de agosto. 

A tradição oral conta que a festa tem raízes africanas. Negros que habitavam a região já cultuavam seus mortos em manifestações religiosas à beira do Rio Paraúna.  A capela dedicada a São Miguel (arcanjo defensor das almas do purgatório) foi construída no fim do século XIX. O dono da área, o fazendeiro Antonio Francisco Pinto, doou as terras para os espíritos, ao resolver ser benfeitor da festa dedicada ao santo e às almas. O cemitério e o pequeno templo ficaram sob a guarda dos padres redentoristas da cidade de Curvelo. 

A agitação religiosa que os milhares de romeiros levam para o lugar também convive com um lado mais profano. As almas que ali descansam tiveram, nos últimos anos, que se acostumar com aparelhos de som que disseminam, em altíssimo volume, as últimas novidades do sertanejo e do funk. Visitantes menos afeitos às questões espirituais animam-se com fartas doses de cachaça, vendidas pelo comércio que arma suas barracas nos dias dos festejos. Acredita-se que o dinheiro obtido ali desta maneira é amaldiçoado. Há relatos de comerciantes de ocasião que perderam tudo o que ganharam ao fim desses dias e tiveram suas vidas arruinadas.

Ao fim das celebrações, os romeiros voltam a empacotar seus pertences e deixar o lugar, que voltará a ficar abandonado por meses. As casas, que passam de pai para filho, novamente desertas, compõem novamente o cenário solitário e desolado que dá o ar fantasmagórico ao Cemitério das Almas do Peixe. Os espíritos podem novamente descansar em paz.

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